O seguro de responsabilidade civil profissional, o E&O, paga a indenização e os custos de defesa quando um cliente alega prejuízo causado por erro, omissão ou negligência num serviço técnico. A cobrança tem base na lei. Quem causa dano por culpa repara (Código Civil, art. 927), e o profissional liberal responde quando a culpa é demonstrada (CDC, art. 14, §4º). Médicos e dentistas têm regra própria no art. 951 do Código Civil, advogados no art. 32 do Estatuto da Advocacia, engenheiros e construtores no art. 618 do Código Civil. Nenhuma dessas leis obriga a ter o seguro. Quem costuma exigir é o contrato com o hospital, com o cliente corporativo ou com o órgão público.
O que a lei cobra de cada profissão?
| Profissão | O que a lei diz | Onde está |
|---|---|---|
| Médicos, dentistas e demais profissionais de saúde | Indenização quando, por negligência, imprudência ou imperícia, o profissional causa a morte do paciente, agrava o mal, causa lesão ou o inabilita para o trabalho | Código Civil, art. 951 |
| Advogados | Responsáveis pelos atos praticados com dolo ou culpa no exercício profissional. Sócios respondem subsidiária e ilimitadamente pelos danos aos clientes | Lei 8.906/1994, arts. 32 e 17 |
| Engenheiros e construtores | Respondem por cinco anos pela solidez e segurança da obra, em razão dos materiais e do solo | Código Civil, art. 618 |
| Contadores, consultores, corretores, profissionais de TI | Regra geral da culpa. Perante o consumidor, a empresa prestadora responde pelo defeito do serviço | Código Civil, art. 927, e CDC, art. 14 |
Repare na última coluna da regra do consumidor. O profissional pessoa física só responde com culpa provada. A pessoa jurídica que presta o serviço responde sem essa discussão. É por isso que a apólice quase sempre é contratada em nome da clínica ou do escritório, cobrindo os profissionais que atuam por ela.
O que o seguro E&O paga e o que ele deixa de fora?
Paga a indenização fixada em acordo ou condenação, até o limite contratado, e os gastos com a defesa, que têm limite próprio e separado (Lei 15.040/2024, art. 98, §2º). A defesa pesa mais do que parece. Um processo por erro médico ou por perda de prazo pode durar anos, e o custo de advogado e perícia corre mesmo quando o profissional tem razão.
Fica de fora o ato doloso, porque a provocação dolosa do sinistro tira o direito à indenização (Lei 15.040/2024, art. 69). Ficam de fora também as multas aplicadas ao próprio profissional, os fatos que ele já conhecia e não declarou na contratação, e os danos corporais ou materiais sem relação com o serviço técnico, que são assunto de RC Geral.
Por que a data da reclamação importa mais que a data do erro?
A Circular SUSEP 637/2021 define dois modelos de apólice. No modelo à base de ocorrências, o dano precisa acontecer durante a vigência. No modelo à base de reclamações, o que precisa acontecer na vigência é a reclamação do terceiro, e o fato pode ser anterior, desde que esteja dentro do período de retroatividade (art. 2º, II).
O E&O costuma seguir o segundo modelo, e isso muda a forma de comprar. Um contador entrega a escrituração de um cliente em 2024. A autuação fiscal chega em 2026, e só então o cliente reclama. A apólice que responde é a vigente em 2026, se a retroatividade alcançar 2024.
Duas decisões derrubam essa cobertura sem ninguém perceber. Trocar de seguradora sem manter a data de retroatividade. E cancelar a apólice ao encerrar a atividade sem contratar o prazo adicional para reclamações futuras. Erro profissional costuma aparecer anos depois.
E&O e D&O cobrem coisas diferentes
O E&O cobre o erro no serviço entregue ao cliente. O D&O cobre os administradores pelos atos de gestão. A Lei das S.A. diz que o administrador responde civilmente pelos prejuízos que causar quando agir com culpa ou dolo, ou com violação da lei ou do estatuto (Lei 6.404/1976, art. 158).
Numa clínica, o exemplo fica claro. O médico que erra um procedimento gera uma reclamação de E&O. O sócio-administrador que toma uma decisão financeira questionada pelos outros sócios ou por credores gera uma reclamação de D&O. Empresas de serviço com sócios e gestores costumam precisar das duas, e este artigo explica o D&O em detalhe.
Quanto custa e como escolher o limite?
A seguradora olha a profissão e a especialidade, o faturamento, o histórico de reclamações, o limite pedido, a franquia e a data de retroatividade. Cirurgia e obstetrícia não pagam o mesmo que clínica geral. Contencioso de massa não paga o mesmo que consultivo. Não há tabela, e o preço só aparece na cotação.
Para o limite, a pergunta útil é qual o maior prejuízo que um erro seu pode causar a um único cliente, somado ao custo de se defender. Um aviso que vale mais que a apólice: seguro não substitui prontuário completo, contrato de prestação de serviços bem escrito e registro do que foi orientado ao cliente. Reclamação sem documento é difícil de defender, com ou sem seguro.
Leia também
- O que o seguro de responsabilidade civil cobre numa empresa e quando ele é obrigatório
- Seguro D&O: o que é e por que contratar
- Responsabilidade dos administradores: o que diz a lei
Perguntas frequentes
O seguro de responsabilidade civil profissional é obrigatório?
As leis citadas neste texto não obrigam médicos, advogados, contadores ou engenheiros a contratar o seguro. A exigência costuma vir de contratos com hospitais, clientes corporativos e órgãos públicos.
O que é seguro E&O?
E&O vem de errors and omissions. É o seguro de responsabilidade civil profissional, que paga a indenização e a defesa quando um cliente alega prejuízo por erro, omissão ou negligência na prestação de um serviço técnico.
Qual a diferença entre E&O e D&O?
O E&O cobre o erro no serviço prestado ao cliente. O D&O cobre os administradores por atos de gestão, que a Lei 6.404/1976 (art. 158) responsabiliza quando há culpa, dolo ou violação da lei ou do estatuto.
O seguro cobre reclamação por fato antigo?
Na apólice à base de reclamações, cobre se o fato estiver dentro do período de retroatividade e a reclamação chegar durante a vigência ou no prazo adicional (Circular SUSEP 637/2021, art. 2º). Fato já conhecido e não declarado na contratação fica de fora.
A apólice é do profissional ou da empresa?
Pode ser de qualquer um dos dois. Como a pessoa jurídica responde pelo serviço sem discussão de culpa (CDC, art. 14), o mais comum é a apólice em nome da clínica ou do escritório, cobrindo os profissionais que atuam por ela.
O seguro cobre erro de funcionário ou estagiário?
A empresa responde pelos atos de empregados e prepostos (Código Civil, art. 932, III). A apólice em nome da pessoa jurídica costuma alcançar a equipe; confira na proposta quem está incluído como segurado.
Quanto custa um seguro de responsabilidade civil profissional?
Depende da profissão e da especialidade, do faturamento, do histórico de reclamações, do limite, da franquia e da retroatividade. Não há preço de tabela. A cotação em mais de uma seguradora mostra a diferença.
Fontes e normas citadas
- Código Civil (Lei 10.406/2002), arts. 618, 927, 932 e 951 · Planalto
- Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/1990), art. 14 · Planalto
- Estatuto da Advocacia (Lei 8.906/1994), arts. 17 e 32 · Planalto
- Lei 6.404/1976 (Lei das S.A.), art. 158 · Planalto
- Lei 15.040/2024 (Lei do Contrato de Seguro), arts. 69 e 98 · Planalto
- Circular SUSEP nº 637/2021, que dispõe sobre os seguros do grupo responsabilidades (art. 2º) · PDF, SUSEP
Felipe Porto

